Líderes de férias? Ler é o melhor remédio!
Chegamos às férias cansados, será que estamos apenas fisicamente cansados? Provavelmente não. Para muitos líderes e gestores, o verdadeiro desgaste acumulado ao longo do ano é mental, devido a centenas de decisões, reuniões sucessivas, mensagens, notificações, problemas para resolver e uma atenção permanentemente e fragmentada. O corpo pode parar quando chegamos à praia, ao campo ou a uma esplanada, mas a cabeça nem sempre acompanha.

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A investigação sobre fadiga mental mostra que tarefas cognitivas prolongadas prejudicam o desempenho e obrigam o cérebro a mobilizar mecanismos de autorregulação e recuperação. É por isso que descansar não significa simplesmente deixar de trabalhar, mas também mudar de ritmo, recuperar atenção e criar espaço mental. E talvez exista uma ferramenta extraordinariamente simples para isso: um livro.
Ler obriga-nos a abrandar, a concentrar a atenção numa narrativa ou numa ideia, a imaginar, interpretar e refletir. Vários estudos realizados demostraram os benefícios cognitivos associados à leitura, particularmente ao nível da empatia e da capacidade de compreender os estados mentais dos outros, ainda que a leitura e a cognição social ativam redes cerebrais relacionadas com a construção de cenários e a compreensão das outras pessoas.
Aproveitando as férias como uma excelente oportunidade para descansar, e sobretudo para nos reencontrarmos, proponho seis livros orientados para uma matéria-prima muito importante: nós próprios. Deixemos assim os temas da estratégia, inteligência artificial ou gestão, para depois das férias!
1. Start With Why, Simon Sinek: reencontrar o propósito
Simon Sinek tornou conhecida uma pergunta aparentemente simples, Why? Porque fazemos aquilo que fazemos? Em Start With Why, apresenta o conhecido Golden Circle (Why, How e What) defendendo que líderes e organizações capazes de começar pelo propósito conseguem inspirar pessoas de uma forma diferente, não sendo apenas uma reflexão empresarial, mas também pessoal. As férias são um bom momento para nos afastarmos das tarefas e regressarmos às perguntas essenciais: porque faço o que faço? O que me continua a motivar? Estou a construir a vida profissional que realmente quero? Antes de regressarmos ao “What” de setembro, talvez seja útil recuperar o nosso “Why”.

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2. O Poder do Agora, Eckhart Tolle: aprender a estar presente
Quantas vezes estamos de férias e continuamos mentalmente no escritório? Respondemos a mensagens, antecipamos problemas de setembro, revemos decisões e transportamos connosco conversas que já terminaram. Eckhart Tolle propõe precisamente o contrário: recuperar a capacidade de viver o momento presente. O Poder do Agora convida-nos a observar a relação que mantemos com os nossos próprios pensamentos e a reduzir a tendência para viver permanentemente entre aquilo que aconteceu e aquilo que poderá acontecer. Independentemente da dimensão espiritual da obra, existe aqui uma provocação relevante para qualquer líder: é impossível escutar verdadeiramente os outros quando nunca estamos inteiramente presentes. Talvez aprender a parar seja também aprender a liderar melhor.
3. Os 7 Hábitos das Pessoas Altamente Eficazes, Stephen R. Covey: focar no essencial
Publicado originalmente em 1989, o clássico de Stephen Covey continua atual porque não é verdadeiramente um livro sobre produtividade, mas sim um livro sobre princípios e hábitos que nos levam ao futuro: ser proativo, começar com o fim em mente, colocar primeiro o mais importante, pensar win-win, procurar primeiro compreender para depois ser compreendido, criar sinergias, e finalmente, “afinar o instrumento”. Este último hábito talvez seja particularmente adequado às férias. Covey recorda-nos que não podemos exigir permanentemente resultados de uma ferramenta que nunca paramos para cuidar. Com as pessoas acontece exatamente o mesmo. Recuperar energia física, emocional, intelectual e relacional não é perder produtividade, mas sim criar condições para a sustentar.

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4. O Cavaleiro da Armadura Enferrujada, Robert Fisher: retirar a armadura
É provavelmente o livro mais simples desta lista, talvez um dos mais profundos. Robert Fisher conta a história de um cavaleiro tão habituado à sua armadura que chega a um momento em que já não consegue retirá-la. A metáfora é evidente, ao longo da vida vamos construindo as nossas próprias armaduras: estatuto, profissão, responsabilidades, expectativas, necessidade de reconhecimento ou imagens que criámos de nós próprios. O problema começa quando deixamos de perceber onde termina a armadura e começa a pessoa, e para quem exerce cargos de liderança, esta pequena fábula coloca uma questão essencial: quem somos quando retiramos o cargo, o título e aquilo que os outros esperam de nós? Uma excelente leitura para férias precisamente porque nos obriga a olhar para dentro.
5. Quem Mexeu no Meu Queijo?, Spencer Johnson: aceitar que tudo muda
Outra pequena história com uma grande mensagem. Quatro personagens percorrem um labirinto à procura de queijo. Quando aquilo que encontraram desaparece, cada uma reage de forma diferente: Medo. Negação. Resistência. Adaptação. O “queijo” pode representar um emprego, uma função, uma relação, uma posição ou simplesmente a segurança daquilo que conhecemos. Num momento de enorme transformação tecnológica e social, a mensagem continua atual: resistir à mudança não impede que ela aconteça. Nas organizações, vemos diariamente pessoas que continuam à procura do queijo no mesmo lugar simplesmente porque sempre esteve ali. As férias podem ser um bom momento para perguntar: que mudança estou a evitar?
6. LEMON – Uma Viagem para a Felicidade, Sérgio Almeida: voltar a olhar para a felicidade
Permito-me terminar esta lista com uma escolha pessoal, o meu livro. LEMON nasceu de uma reflexão sobre felicidade, mas também sobre propósito, relações humanas e a forma como escolhemos olhar para os desafios. A metáfora do limão é deliberadamente simples, a vida entrega-nos circunstâncias que nem sempre escolhemos, podemos concentrar-nos apenas na sua acidez ou descobrir aquilo que conseguimos construir a partir delas. Não se trata de defender uma felicidade permanente ou artificial, mas sim de perceber que a felicidade também resulta da forma como interpretamos experiências, valorizamos relações e encontramos significado naquilo que fazemos. Talvez as férias sejam precisamente um dos raros momentos do ano em que conseguimos fazer essa pergunta com tempo: o que me faz realmente feliz? Se a vida te dá limões, faz limonada!
Férias: desligar para voltar diferente
Existe uma que descansa significa não fazer nada, por vezes significa exatamente isso, mas as descansar também pode significa fazer coisas diferentes. Caminhar sem destino. Conversar sem agenda. Dormir melhor. Estar com quem gostamos. Observar. Pensar. E ler. Estes seis livros falam de assuntos diferentes, mas existe um fio comum entre todos eles. Sinek pergunta-nos porquê. Covey convida-nos a escolher como viver. Tolle ensina-nos a estar presentes. Fisher desafia-nos a perceber quem somos. Johnson prepara-nos para mudar. E LEMON convida-nos a refletir sobre como queremos viver e ser felizes.
Depois de um ano inteiro a correr para chegar a algum lado, talvez o verão seja a altura certa para percebermos onde realmente queremos chegar, podendo utilizar algumas horas das nossas férias, simplesmente parar, ler e pensar. Boas férias. E boas leituras.
Artigo de Sérgio Almeida, em parceria com o Semanário Vida Económica.