23 Setembro, 2026 0 comment

Back to business: como manter a energia no regresso ao trabalho

Setembro tem qualquer coisa de janeiro. Regressamos das férias com a sensação de que começa um novo ciclo. Revemos prioridades, fazemos planos, retomamos projetos e, durante alguns dias, acreditamos que desta vez será diferente. O problema é que rapidamente voltam as reuniões, os emails, as urgências, as agendas sobrecarregadas e aquela estranha capacidade que as organizações têm de transformar energia renovada em cansaço acumulado.

 


Por isso, talvez a questão mais importante neste back to business não seja saber como regressar ao trabalho, mas como regressar sem voltar imediatamente às rotinas que nos esgotaram antes das férias.

A energia tornou-se um dos recursos mais críticos das organizações contemporâneas. E não me refiro apenas à energia física. Refiro-me à capacidade de manter atenção, clareza, motivação e disponibilidade emocional ao longo do tempo. Os dados ajudam a perceber o problema. Segundo a Gallup, apenas 20% dos colaboradores a nível mundial estão verdadeiramente envolvidos no seu trabalho e 40% afirmaram ter sentido níveis significativos de stress no dia anterior. A Organização Mundial da Saúde recorda, por sua vez, que cargas de trabalho excessivas, reduzido controlo sobre o trabalho e ambientes profissionais inadequados constituem fatores de risco para a saúde mental.

Ou seja, férias podem recuperar pessoas, mas dificilmente corrigem sistemas de trabalho disfuncionais.

 

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Imagem: skillfine


Não desperdiçar a energia recuperada

Um dos erros mais frequentes no regresso é tentar recuperar, numa semana, tudo aquilo que ficou suspenso durante três ou quatro. A agenda enche-se, multiplicam-se reuniões e regressamos ao conhecido culto da urgência. É precisamente aqui que líderes e profissionais deveriam fazer o contrário: começar por escolher, e não simplesmente por executar. Perguntar: o que é realmente prioritário até ao final do ano? O que podemos deixar de fazer? Que reuniões deixaram de acrescentar valor? Que tarefas podem ser simplificadas, automatizadas ou delegadas?

O Work Trend Index da Microsoft mostrou uma realidade particularmente reveladora: durante o horário de trabalho, muitos profissionais são interrompidos, em média, a cada dois minutos por reuniões, emails ou mensagens. A própria Microsoft descreve o fenómeno como uma espécie de capacity gap: as exigências aumentam mais rapidamente do que o tempo e a energia disponíveis para lhes responder. Não precisamos necessariamente de trabalhar mais. Precisamos de reduzir o ruído para trabalhar melhor.


Gerir energia, não apenas tempo

Durante décadas, fomos ensinados a gerir o tempo. Mas duas horas de trabalho não têm necessariamente o mesmo valor. Existem momentos em que temos maior capacidade cognitiva, outros em que estamos mais criativos, outros ainda em que simplesmente precisamos de recuperar. Uma gestão moderna do desempenho deve, por isso, combinar tempo, energia e atenção. Proteger períodos de concentração profunda, introduzir pequenas pausas, evitar reuniões consecutivas durante horas, limitar notificações e reservar espaço para pensar são aparentemente pequenas decisões que podem produzir grandes diferenças. A produtividade sustentável não nasce de estar permanentemente ocupado. Nasce da capacidade de concentrar energia naquilo que realmente cria valor.


Voltar a ligar as pessoas ao propósito

Há ainda uma dimensão frequentemente esquecida no regresso ao trabalho: porque regressamos? Não me refiro ao salário ou às responsabilidades funcionais. Refiro-me ao significado que conseguimos encontrar naquilo que fazemos. Simon Sinek popularizou a ideia de começar pelo Why. E talvez setembro seja precisamente um bom momento para líderes voltarem a explicar esse Why: recordar prioridades, contextualizar decisões e mostrar às equipas como o seu trabalho contribui para algo maior. As pessoas dificilmente mantêm energia durante muito tempo quando apenas recebem tarefas. Mantêm-na quando percebem sentido, autonomia e impacto. É também por isso que a liderança tem aqui um papel decisivo. Não basta perguntar “como foram as férias?” na primeira reunião de setembro e, cinco minutos depois, regressar à pressão habitual. O verdadeiro desafio passa por criar condições para que a energia renovada possa ser preservada.


Criar um novo ritmo

Talvez devêssemos deixar de olhar para setembro como o momento de “voltar à velocidade máxima”. Um motor não passa de zero para o regime máximo sem consequências. As pessoas também não. As primeiras semanas deveriam ser utilizadas para recuperar ritmo, reorganizar prioridades e eliminar algumas das ineficiências que fomos acumulando. É uma boa altura para cada profissional fazer uma pequena auditoria ao seu próprio modo de trabalhar: O que quero continuar a fazer? O que devo começar a fazer? E, talvez mais importante, o que preciso de deixar de fazer? Esta última pergunta é provavelmente a mais difícil. Porque melhorar não significa apenas acrescentar novos hábitos. Muitas vezes significa eliminar comportamentos, reuniões, processos e compromissos que deixaram de fazer sentido.

 

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Imagem: imagekit


Do “back to business” ao “back to better”

O regresso ao trabalho não deveria ser simplesmente um retorno ao ponto onde ficámos.  Pode ser uma oportunidade para regressar melhor: com maior consciência sobre a forma como utilizamos o nosso tempo, protegemos a nossa energia e definimos prioridades. As férias lembram-nos algo que o ritmo profissional frequentemente nos faz esquecer: somos mais produtivos quando conseguimos recuperar, pensar e viver para além do trabalho.

O verdadeiro desafio começa agora. Porque descansar durante algumas semanas é relativamente fácil. Construir uma forma de trabalhar que não nos obrigue a passar o resto do ano à espera das próximas férias é muito mais difícil. E talvez seja precisamente essa uma das grandes responsabilidades da liderança contemporânea: criar organizações capazes de alcançar resultados sem consumir, pelo caminho, a energia das pessoas que os tornam possíveis.

Back to business? Sem dúvida. Mas, se possível, back to better.

 

Artigo de Sérgio Almeida, em parceria com o Semanário Vida Económica.

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