Transformar com Impacto: as lições de Jim Collins para um mundo em mudança
Numa época em que praticamente todas as organizações falam de transformação, a diferença entre mudar e evoluir nunca foi tão importante. Transformação digital, cultural, sustentável, organizacional, são várias faces da mesma moeda, mas existe uma questão que continua a separar as organizações que prosperam daquelas que apenas sobrevivem: estamos verdadeiramente a transformar-nos ou estamos apenas a mudar? A diferença parece pequena, mas é bastante profunda. Mudar é reagir. Evoluir é crescer com intenção.

Imagem: Mary Taylor & Associates
Segundo a McKinsey, cerca de 70% das iniciativas de transformação falham total ou parcialmente os objetivos definidos. O problema raramente está na falta de tecnologia, investimento ou recursos. Na maioria dos casos, o desafio encontra-se na ausência de uma direção clara, de uma liderança consistente e da capacidade de mobilizar as pessoas em torno de um propósito comum. Curiosamente, esta conclusão aproxima-se das ideias apresentadas por Jim Collins há mais de vinte anos no clássico Good to Great. Após analisar mais de 1.400 empresas, Collins concluiu que a excelência não é uma consequência da sorte nem das circunstâncias, mas sim o resultado de escolhas conscientes, disciplina e consistência ao longo do tempo. Talvez por isso as suas lições continuem tão relevantes num mundo marcado pela inteligência artificial, pela disrupção e pela mudança permanente.
O erro de confundir transformação com movimento
Muitas organizações vivem ocupadas, lançam iniciativas, criam projetos, implementam sistemas, anunciam mudanças, mas na verdade nem sempre produzem impacto. Jim Collins chamou a atenção para uma realidade frequentemente ignorada: as empresas excelentes não procuravam mudanças constantes de direção, pelo contrário, construíam momentum através de uma combinação de foco, disciplina e consistência. Este processo ficou conhecido como Flywheel, um volante pesado que exige esforço contínuo até ganhar velocidade própria. A McKinsey utiliza uma linguagem diferente, mas chega a uma conclusão semelhante: as transformações mais bem-sucedidas são aquelas que possuem um True North, uma direção clara que orienta decisões, prioridades e comportamentos, sem uma bússola estratégica, as organizações correm o risco de entrar no chamado Doom Loop: saltar de iniciativa em iniciativa, de moda em moda, sem criar resultados sustentáveis. Transformar com impacto não significa fazer mais, significa avançar na direção certa.

Imagem: Deloitte 2025 Chief Transformation Officer Study
A liderança e as pessoas
Num mundo que valoriza visibilidade, notoriedade e protagonismo, uma das conclusões mais surpreendentes de Collins continua a ser o conceito de Level 5 Leadership. Segundo Collins, os líderes das empresas que deram o salto da excelência não eram necessariamente os mais mediáticos, eram líderes que combinavam duas características aparentemente contraditórias: humildade pessoal e ambição profissional, não procurando reconhecimento para si próprios, mas sim resultados para a organização.
Hoje, esta ideia torna-se ainda mais relevante, os desafios atuais exigem líderes capazes de criar confiança, desenvolver pessoas, construir culturas de aprendizagem e navegar em ambientes de elevada incerteza, os colaboradores não procuram líderes perfeitos, procuram líderes autênticos, que transmitam direção quando o caminho não é evidente e que coloquem o propósito acima do ego.
Uma das frases mais conhecidas de Collins continua a desafiar muitos gestores: First Who, Then What. Antes de decidir para onde ir, é necessário garantir que as pessoas certas estão no autocarro, sobretudo num momento em que a inteligência artificial está a redefinir profissões e o Fórum Económico Mundial prevê alterações significativas em cerca de 40% das competências atuais, esta ideia ganha nova relevância. As organizações mais competitivas do futuro não serão necessariamente aquelas que possuem mais tecnologia, mas sim aquelas que conseguem desenvolver mais talento, baseado em valores e propósito, pois nenhuma estratégia sobrevive sem pessoas capazes de a executar e nenhuma transformação se sustenta sem uma cultura capaz de aprender continuamente.
Realidade, foco e disciplina
Outra das lições ainda atual de Collins é a capacidade de Confront the Brutal Facts. As organizações excelentes não ignoravam problemas, não escondiam erros, nem viviam em negação, criavam ambientes onde a verdade podia ser dita e onde os factos eram valorizados acima das opiniões. Mas existe um detalhe importante: confrontar a realidade não significa perder a esperança, mas sim combinar realismo com confiança, reconhecendo os desafios sem abdicar da ambição.
Num mundo de excesso de informação, distrações permanentes e oportunidades infinitas, o foco tornou-se uma vantagem competitiva, e Collins chamou-lhe Hedgehog Concept. As organizações e gestores extraordinários sabem responder a três perguntas fundamentais: em que podem ser os melhores do mundo? o que move o seu motor económico? o que as apaixona verdadeiramente? A interseção destes três elementos cria clareza, gerando impacto.

Talvez uma das ideias mais mal compreendidas da gestão seja a disciplina. Frequentemente associada a controlo e burocracia, Collins apresenta uma visão diferente, enfatizando que a verdadeira disciplina cria autonomia, responsabilidade, confiança, permitindo que as pessoas tomem decisões alinhadas com os objetivos da organização sem dependerem permanentemente da hierarquia, no fundo menos controlo, mais responsabilidade, menos burocracia e mais propósito.
Conclusão: transformar para criar impacto
Vinte e cinco anos depois da publicação de Good to Great, algumas empresas do estudo original desapareceram, outras perderam relevância e várias conclusões tiveram de ser adaptadas à realidade digital. Mas os princípios fundamentais continuam vivos: liderança com humildade, talento antes da estratégia, verdade acima da vaidade.
Foco. Disciplina. Propósito. Talvez seja por isso que a principal mensagem de Jim Collins continua tão atual: a transformação não acontece porque mudamos de sistema, ou porque lançamos uma nova iniciativa ou adotamos uma nova tecnologia. A transformação acontece quando conseguimos alinhar liderança, cultura, talento e propósito em torno de uma visão comum, sendo certo que mudar é inevitável, também é verdade que evoluir continua a ser uma escolha. As organizações que conseguirão prosperar nos próximos anos serão aquelas que compreenderem que o verdadeiro impacto não nasce da velocidade da mudança mas sim da clareza da direção.
Artigo de Sérgio Almeida, em parceria com o Semanário Vida Económica.